Hebraísmos da Bíblia
18/05/2012 13:26
Por hebraísmos entendemos certas expressões e maneiras peculiares do idioma hebreu que ocorrem em nossas traduções da Bíblia, que originalmente foi escrita em hebraico e em grego. Alguns conhecimentos destes hebraísmos são necessários para poder fazer uso devido de nossa primeira regra de interpretação
.
Exegese é a aplicação dos princípios da hermenêutica para chegar-se a um entendimento correto do texto. O prefixo ex (“fora de” “para fora”, ou “de”) refere-se á idéia de que o intérprete está tentando derivar seu entendimento do texto, em vez de ler seu significado no (“para dentro”) texto (exegese).
A mesma coisa pode acontecer ao traduzir-se de outras línguas se o leitor ignorar que frases como “o Senhor endureceu o coração de Faraó” podem conter expressões idiomáticas que dão sentido primitivo desta frase, algo diferente daquele comunicado pela tradução literal.
Paradoxo
Paradoxo é uma afirmação aparentemente absurda ou contrária ao bom senso. Um paradoxo não é uma contradição; é simplesmente algo que parece ser o oposto do que em geral se sabe. Parece um paradoxo o fato de Jesus dizer: “... quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á...” (Mc. 8.35). Geralmente, quando alguém perde alguma coisa, não a salva ao mesmo tempo. É claro que Jesus falou desse modo para enfatizar que, quando alguém faz sacrifícios por ele, de fato experimenta uma vida mais completa e agradável.
Ironia
A ironia é uma forma de ridicularizar indiretamente sob a forma de elogio. Com freqüência vem marcada pelo tom de voz de quem fala, para que os ouvintes a percebam. Por isso, ás vezes é difícil saber se uma declaração escrita deve ser considerada ironia. Mas normalmente o contexto ajuda a mostrar se é ou não uma ironia. Mical, a filha de Saul, disse a Davi: “... Que bela figura fez o rei de Israel...” (2 Sm. 6.20). O versículo 22 indica que o sentido pretendido era o oposto, ou seja, que ele havia-se humilhado ao agir de maneira indigna, no entender de Mical. Ás vezes a ironia vem acompanhada de humor, como no caso em que Elias zombou dos profetas de Baal: “... Clamai em altas vozes, porque ele é deus!” (1 Rs. 18.27). È claro que Elias não acreditava que o falso deus Baal realmente existisse. Ele fez um elogio a Baal em tom de ironia para incitar os profetas a orarem ainda mais alto. Isso reforçou o fato de que aquele deus falso, ao contrário de Javé, o Deus verdadeiro, nem sempre ouvia seus adoradores.
Litotes
Consiste numa frase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação. É o oposto da hipérbole. Quando dizemos “Ele não é um mau pregador”, queremos dizer que ele é um pregador muito bom. A atenuação confere ênfase. Quando Paulo disse “... Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante...” (At. 21.39), quis dizer que Tarso era na realidade uma cidade importante. Ás vezes uma litotes é uma frase de depreciação, como vemos em Números 13.33: “Éramos aos nossos próprios olhos gafanhotos, e assim também o éramos aos seus olhos”, Lucas empregou esse recurso várias vezes. Ele comentou que “houve não pouco alvoroço entre os soldados” (At. 12.18), “não pouco lucro” (19.24) “não pequena tempestade” (27.20), e que Paulo e Barnabé permaneceram em Antioquia “não pouco tempo” (14.28). Paulo depreciou a si mesmo com uma litotes, em 1 Co. 15.9: “Porque eu sou o menor dos apóstolos”. Essa declaração de autêntica humildade foi feita para salientar a graça de Deus em sua vida, como pecador que não a merecia (veja o v.10).
Hipérbole
É uma afirmação exagerada em que se diz mais do que o significado literal com o objetivo de ênfase. Quando 10 dos espias israelitas apresentaram o relatório da incursão á Canaã, disseram: “... as cidades são grandes e fortificadas até aos céus...” (Dt. 1.28). È claro que eles não estavam afirmando que as muralhas das cidades de Canaã realmente chegavam aos céus; estavam apenas dizendo que eram descomunalmente altas.
O salmista valeu-se da hipérbole para acrescentar ênfase quando escreveu: “... toda a noite faço nadar em lagrimas a minha cama, com elas inundo...” (Sl. 6.6).
Pergunta retórica
Uma pergunta retórica é aquela que não exige resposta; seu objetivo é forçar o leitor a respondê-la mentalmente e avaliar suas implicações. Quintiliano (35-100 d.C.), retórico romano, afirmou que as perguntas retóricas aumentam a força e a irrefutabilidade da prova. Quando Deus perguntou para Abraão: “Acaso para Deus há cousa demasiadamente difícil?”... (Gn. 18.14), ele não esperava ouvir uma resposta. A intenção era que o patriarca a respondesse mentalmente. O mesmo aconteceu quando o Senhor perguntou a Jeremias: “... acaso haveria cousa demasiadamente maravilhosa para mim?” (Jr. 32.27). Paulo fez uma pergunta retórica em Romanos 8.31: “... Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Essas perguntas retóricas são formas de transmitir informações. As primeiras duas perguntas indicam que nada é impossível para Deus, e a indagação de Paulo em Romanos 8.31 diz que ninguém pode vencer o cristão, pois Deus o defende.
Eufemismo
Consiste na substituição de uma expressão desagradável ou injuriosa por outra inócua ou suave. Falamos da morte mediante eufemismo: “ele passou para o outro lado”, “bateu as botas” ou “foi para uma melhor”. A Bíblia fala da morte dos cristãos como um adormecimento (At. 7.60; 1 Ts. 4.13-15).
Zoomorfismo
Se o antropomorfismo atribui características humanas a Deus, o zoomorfismo atribui características animais a Deus (ou a outros). São maneiras expressivas e originais de salientar certos atos e qualidades do Senhor. O salmista disse: “[Deus] Cobrir-te-á com as suas penas, sob suas asas estarás seguro”. (Sl. 91.4). A imagem que vem á mente dos leitores é de pintinhos ou passarinhos protegidos debaixo das asas da galinha ou do pássaro-mãe. Jó descreveu o que considerou ser a ira de Deus contra ele quando disse: “[Deus] contra mim rangeu os dentes” (Jó 16.9).
Antropopatia
Esta figura de linguagem atribui emoções humanas a Deus, como vemos em Zacarias 8.2: “Tenho grandes zelos de Sião”. Também em Gn. 6.6: “Então arrependeu-se o Senhor”.
Antropomorfismo
Consiste na atribuição de qualidades ou ações humanas a Deus, como ocorre nas referências aos dedos de Deus (Sl. 8.3), a seus ouvidos (3.2) e a seus olhos (2 Cr. 16.9).
Personificação
O que ocorre aqui é a atribuição de características ou ações humanas a objetos inanimados, a conceitos ou a animais. A alegria é uma emoção atribuída ao deserto, em Isaías 35.1: “O deserto e a terra se alegrarão”. Isaías 55.12 fala de montes e outeiros entoando cânticos e de árvores batendo palmas. A morte personifica-se em Romanos 6.9 e em 1 Co. 15.55.
Metonímia
A metonímia consiste em substituir uma palavra por outra. Quando dizemos que o Congresso tomou uma decisão, estamos referindo-nos a deputados e senadores. Substituímos os deputados e os senadores pela estrutura política que dirigem. Na afirmação: “A pena é mais forte do que a espada” queremos dizer que o que se escreve (a pena) surte mais efeito do que o poderio militar (a espada). Na Bíblia, existem pelo menos três tipos de metonímia:
Hipocatástase
Esta figura de linguagem, não tão conhecida, também faz uma comparação em que a semelhança é indicada diretamente. Quando Davi disse: “Cães me cercam...” (Sl. 22.16), estava referindo-se a seus inimigos, chamando-os de cães. Os falsos mestres também são chamados cães, em Filipenses 3.2, e lobos vorazes, em Atos 20.29. As diferenças entre um símile, uma metáfora e uma hipocatástase podem ser identificadas nas seguintes frases:
Símile: “Vocês, ímpios, são como cães”.
Metáfora: “Vocês, ímpios, são cães”.
Hipocatástase: “Seus cães”.
Em João 1.29, João Batista fez uso de uma hipocatástase: “... Eis o Cordeiro de Deus...”. Se ele tivesse dito: “Jesus é como um cordeiro” estaria usando um símile. Mas se tivesse dito: “Jesus é um cordeiro”, estaria usando uma metáfora. Quando Cristo disse a Pedro: “... Apascenta as minhas ovelhas...” (Jo. 21.17), ele chamou seus seguidores de ovelhas, usando uma hipocatástase.
O contexto precisa ser avaliado para saber o que a hipocatástase representa. Por exemplo, Jeremias disse: “um leão subiu da sua ramada” (Jr. 4:7).
Metáforas
È uma comparação em que um elemento, imita ou representa outro (sendo que os dois são essencialmente diferentes). Numa metáfora, a comparação está implícita, ao passo que num símile é visível. Uma pista para identificar uma metáfora é que os verbos “ser” e “estar” sempre são empregados. Temos um exemplo disso em Isaías 40.6: “Toda a carne é como a erva”. (Um símile sempre traz a conjunção como ou outras). O Senhor disse para Jeremias: “O meu povo tem sido ovelhas perdidas” (Jr. 50.6). O Senhor comparou seus seguidores ao sal: “Vós sois o sal da terra” (Mt. 5.13). Eles não eram sal de verdade; estavam sendo comparados ao sal. Quando Jesus afirmou: “Eu sou a porta” (Jo. 10.7-9). “Eu sou o bom pastor” (v.11-14) e “Eu sou o pão da vida” (6.48), ele estava fazendo comparações. Em certos aspectos, ele é como uma porta, como um pastor e como um pão. O leitor é levado a pensar de que forma Jesus assemelha-se a tais elementos.
“Existe na metáfora alguma característica comum a ambas as partes, a qual, normalmente, não é reconhecida como comum”.
Símile
É uma comparação em que uma coisa lembra outra explicitamente (usando como, assim como, tal qual, tal como). Pedro usou um símile quando escreveu: “... toda carne é como a erva...” (1 Pe. 1.24). As palavras do Senhor em Lucas 10.3 são um símile: “... Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos...”. Também existem símiles no salmo 1: “Ele é como árvore plantada junto à corrente de águas” (v. 3) e "são [...] como a palha” (v.4). A dificuldade dos símiles é descobrir as semelhanças entre os dois elementos. Em que aspecto o homem é como a erva? Em que sentido os discípulos de Jesus eram como cordeiros? De que forma o cristão é como uma árvore e o ímpio como a palha?
Naquele tempo e lá / Agora e aqui
Quando estudamos um texto é necessário primeiramente entendê-lo “Naquele tempo é lá”, ou seja, no tempo e lugar onde o texto foi escrito, para depois entendê-lo “Agora é aqui”, ou seja, nos nossos dias, após isso se dará a “Aplicação do texto” e em seguida a “Pregação (ensino)”.
O texto analisado da forma “Aqui e agora” tem uma distância enorme do texto “Naquele tempo e lá”. A distância do “agora é aqui” e “naquele tempo é lá” se da por:
1 – linguagem
2 – cultura
3 – geografia
4 – história
5 – filosofia
Ex. Dt. 24.1 – Mt. 5.31-32